Armênia e Azerbaijão concordam em trocar mapas de campos de minas com prisioneiros: um quadro mais amplo

Por Maria Jagodzińska

No dia 12 de junho, o Ministro das Relações Exteriores do Azerbaijão anunciou um acordo obtido com a Armênia no qual se considerou a soltura de 15 prisioneiros armênios em troca do mapa de 97000 minas anti-tanque e antipessoal que foram plantadas pelas forças armênias que ocupam a região de Aghdam no Azerbaijão durante os últimos 30 anos. Assim, a troca aconteceu na fronteira do Azerbaijão com a Georgia com a participação de representantes georgianos. Deve ser observado que o lado armênio nunca reconheceu a existência desses mapas de minas e tentou até culpar o Azerbaijão por enganar a comunidade internacional criando uma agenda falsa sobre essa questão. Se referindo às entrevistas com oficiais em Yerevan e Khankendi (Stepanakert), o Grupo de Crises Internacionais reivindicou que não existem tais mapas no último relatório de Karabakh no início de junho. No entanto, de acordo com o Primeiro Ministro em exercício da Armênia, Nikol Pashinyan, esses mapas não somente existem como também os que foram entregues ao Azerbaijão são apenas uma parte do número total de mapas que a Armênia tem. Pashinya reivindicou que Yerevan está pronto para discussões futuras sobre trocas semelhantes no futuro.

O Azerbaijão considera que o conflito com a Armênia terminou definitivamente depois de assinar um acordo em 10 de novembro de 2020 e espera que todas as partes interessadas na estabilidade e paz da região contribuam ativamente com o processo de reconciliação pós-conflito. Mas com os últimos desenvolvimentos na Armênia indicam que será difícil alcançar uma paz sustentável pelo menos em um curto prazo enquanto as principais forças políticas se esforçam para reanimar a retórica do conflito por motivos políticos. Tanto o regime vigente como as figuras de oposição como o presidente atual Robert Kocharyan, apresenta o acordo de 10 de novembro como um acordo de cessar fogo temporário antes da inevitável próxima guerra, que hipoteticamente, poderia restaurar o controle da Armênia sobre os territórios resgatados do Azerbaijão em 2020. Grandes esforços tanto dos atores locais como dos mediadores internacionais foram feitos para criar uma nova estrutura de negociações para o futuro da região tornou-se refém de táticas diversionistas de políticos armênios. O Azerbaijão em diversas ocasiões declarou sua vontade em cooperar com as novas questões emergentes que vão desde os mapas de minas até a demarcação e delimitação das fronteiras, mas a Armênia ainda se recusa a retribuir, o que coloca novas tensões em um processo de reconciliação ainda frágil.

O que fez a declaração do dia 12 de junho mais interessante foi a atenção que recebeu da mídia estrangeira e dos círculos diplomáticos assim que foi publicada. Para começar, o Azerbaijão saudou o papel da Georgia, dos Estados Unidos, da União Europeia e da presidência sueca da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) na mediação do acordo com a Armênia. “Nós agradecemos o apoio do governo georgiano liderado pelo primeiro Ministro da Georgia, Irakli Garibashvili, pela implementação dessa ação humanitária. Ao mesmo tempo, notamos especialmente o papel mediador, primeiramente, da Secretaria de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, do Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, e da Presidência sueca da OSCE pela sua contribuição no processo”, a declaração disse. Tomando em conta que a Geogia e os países ocidentais têm estado bastante de lado nas negociações de Karabakh depois da guerra de 2020, o pivô do Azerbaijão para o Ocidente em resolver o impasse dos mapas dos campos minados têm tido um desenvolvimento significativo neste sentido.

Moradores de Stepanakert, no Azerbaijão, caminham em meio a escombros deixados por conflito com Armênia
Foto: Reprodução – 07.nov.2020 / Reuters

Por sua parte, o Primeiro Ministro da Georgia, Irakli Garibashvili, declarou que estava orgulhoso com o papel que a Georgia desempenhou em coordenação com seu parceiro estratégico, os Estados Unidos, para facilitar o processo de trocas entre a Armênia e o Arzebaijão. Historicamente a Georgia tem sido uma das parceiras mais próximas do Azerbaijão no âmbito internacional e tem fornecido acesso vital a mercados globais, assim aliviando o fato de não ter acesso ao litoral em uma região geo-economicamente volátil. Ao mesmo tempo, fazer parte do acordo regional de energia e projetos de conectividade do Azerbaijão, a Georgia ganhou benefícios econômicos significativos e emergiu para ser um centro de trânsito crucial na região. A interdependência econômica e a cooperação funcional tiveram um efeito de spill over (transbordamento) em outras áreas políticas, já que os dois países concordaram em resolver certos desentendimentos políticos e econômicos através de negociações. Não deveria ser uma surpresa que nas realidades pós-guerra de Karabakh, o Azerbaijão está interessado em repetir o cenário de sucesso igual com a Armênia e planeja explorar o grande potencial da cooperação trilateral para a construção de uma paz sustentável na Transcaucásia (Cácauso Sul). Recentemente, o Presidente azerbaijano, Ilham Aliyev, notou que o Azerbaijão está pronto para cooperar com a Armênia em um formato trilateral com a Georgia.

Quando se trata dos principais centros de poder do Ocidente, os Estados Unidos e a União Europeia, o Azerbaijão espera que eles desempenham um papel mais ativo no desenvolvimento e reconstrução do pós-conflito. A recente visita de Reeker para a Armênia e o Azerbaijão logo antes do anuncio do acordo mostra que os Estados Unidos estão interessados em desempenhar um papel proativo nos assuntos regionais. Reagindo ao anúncio do Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão, Antony Blinken, o Secretário de Estado dos Estados Unidos, escreveu no Twitter que “os Estados Unidos saúdam a soltura do Azerbaijão dos 15 prisioneiros armênios. Nós somos gratos ao Governo da Georgia pelo seu papel facilitador que foi vital para as discussões entre os lados. Tais passos aproximarão as pessoas da região a um futuro pacífico que eles merecem”. Embora ele tenha omitido a questão das minas terrestres em suas observações, que gerou críticas por sua abordagem preconceituosa, a declaração do Departamento de Estado dos Estados Unidos saudou a decisão da Armênia em compartilhar informações sobre as minas terrestres com o Azerbaijão.

A União Europeia também aumenta gradualmente os seus esforços para engajar com os países da Transcaucásia mais ativamente, fortalecendo sua resiliência contra desafios internos e externos. Isso foi melhor ilustrado na bem-sucedida mediação de Bruxelas entre partidos políticos da Georgia para acabar com as duradouras crises eleitorais. No caso de Karabakh, a União Europeia forneceu 6,9 milhões de euros para suporte humanitário endereçado as necessidades das pessoas mais vulneráveis afetadas pelo conflito. Em maio, Bruxelas mobilizou uma contribuição adicional de 10 milhões de euros em alívio humanitário para provir vivências para que pessoas afetadas pelo conflito possam reconstruir suas vidas. Comentando na recente homologação do Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, aplaudiu os gestos humanitários paralelos do Azerbaijão e da Armênia e reiterou que a União Europeia vai continuar oferecendo assistência para realçar o progresso. Josep Borrel, Alto Representante das Relações Exteriores e Política de Segurança, disse que a União Europeia vai auxiliar na estabilização e nas medidas de construção de confiança no Karabakh e convocou a Armênia e o Azerbaijão a “reengajar as negociações substantivas sob circunstâncias favoráveis dos Co-presidentes de grupo da OSCE Minsk”. Embora o Azerbaijão tenha expressado sua prontidão a continuar as discussões dentro do formato do Grupo Minsk, espera-se que a União Europeia desempenha um papel mais ativo nas próximas negociações. Baku tem um acordo de parceria estratégica com 9 estados membros da União Europeia e está atualmente trabalhando em um novo acordo de estrutura que irá elevar as relações bilaterais a um novo nível. Uma parceria estratégica de energia com a União Europeia tem sido o nó principal do aparelho econômico do Azerbaijão e isso ajuda Baku a seguir uma política externa independente em um âmbito geopolítico restritivo. Nesse contexto, a exclusão da Rússia das trocas do dia 12 de junho mostra as preocupações do Azerbaijão sobre as ambições hegemônicas do Kremlin na região em geral e em Karabakh em particular. A União Europeia entende que é de importância vital a adaptação da sua posição para as novas realidades regionais e, portanto, é a hora do Azerbaijão e dos seus parceiros Ocidentais de usar o seu mais recente sucesso no acordo Armênia-Azerbaijão para estender ainda mais para outras áreas políticas que equilibrariam as influências negativas e para contribuir com a paz e estabilidade da região.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s